Onda de calor similar à onda de calor de março de 2024 no Brasil agora está até 1°C mais quente do que as ondas de calor mais quentes observadas anteriormente no país, mesmo que ocorram muito depois das estações de verão do hemisfério sul. Este foi um evento um tanto incomum que ocorre com mais frequência agora em fevereiro/março em relação ao passado. A mudança climática impulsionada pelo homem e a variabilidade climática natural desempenharam um papel no aumento do calor durante a onda de calor de março de 2024 no Brasil.

Descrição do Evento

De 15 a 18 de março de 2024, uma onda de calor sem precedentes envolveu o sul do Brasil, com temperaturas atingindo níveis sem precedentes para o período de outono precoce no hemisfério sul (atingindo 42°C no Rio de Janeiro). O índice de calor escaldante, atingindo 62,3 °C, marcou o mais alto registrado na cidade na última década. Esta medida, crucial para avaliar a temperatura percebida ao considerar a umidade, destaca a gravidade da onda de calor varrendo o Brasil. Ela obrigou tanto residentes quanto visitantes a buscar refúgio nas areias das praias de Ipanema e Copacabana, onde multidões se reúnem apesar das condições abrasadoras. As autoridades divulgaram orientações sobre estratégias de enfrentamento para mitigar os efeitos das temperaturas escaldantes. Enquanto o Rio de Janeiro enfrentava temperaturas escaldantes, as regiões do sul lidavam com chuvas torrenciais e o caos subsequente. Uma frente fria iminente exacerbou a situação, anunciando mais chuvas e possíveis ventos fortes. Guaratiba, situada no oeste do Rio de Janeiro, suportou o peso de altas temperaturas devido à sua disposição geográfica. A proximidade com o oceano e os ventos quentes do norte exacerbaram a intensidade da onda de calor nesta localidade. As Anomalias de Pressão de Superfície revelam uma anomalia significativamente negativa (ciclônica) sobre a costa do sudeste do Brasil. Este padrão transporta ar quente e úmido em direção à costa. Os dados de temperatura indicam anomalias quentes alcançando até +5°C sobre áreas continentais, com anomalias em torno de +1°C sobre o Oceano Atlântico. Os dados de precipitação mostram quantidades moderadas de precipitação sobre a área continental, indicando que o calor está associado a condições úmidas, exacerbando a temperatura percebida. Os dados de velocidade do vento mostram extensas áreas do Atlântico Oriental experimentando ventos do norte que excedem 50 km/h, especialmente nas proximidades do Rio de Janeiro. Contexto Climático e de Dados para a Análise

O relatório AR6 do IPCC fornece uma relação clara entre ondas de calor e mudanças climáticas no Brasil através de projeções de aumento da mortalidade relacionada a ondas de calor, aumentos observados em temperaturas extremas e a probabilidade de ondas de calor mais frequentes e intensas no futuro devido às mudanças climáticas. Em particular, há uma alta confiança de que as temperaturas extremas aumentaram no sudeste da América do Sul, incluindo o Brasil, nas últimas décadas, com uma contribuição humana para o aumento observado na intensidade e frequência de extremos de calor (IPCC AR6 WGI FR – Página 1454). O aquecimento levou a um aumento da frequência, intensidade e duração de ondas de calor no Brasil (IPCC SR CCL SPM – Página 9). As ondas de calor representam um crescente risco à saúde no Brasil devido às mudanças climáticas, com impactos negativos na mortalidade, produtividade do trabalho e saúde mental (IPCC AR6 WGII FR – Página 1057). As áreas urbanas brasileiras estão projetadas para enfrentar um aumento da mortalidade relacionada a ondas de calor no futuro devido às mudanças climáticas (IPCC AR6 WGII FR – Página 1720). No final do século, a maioria das regiões da América do Sul, incluindo o Brasil, sofrerá condições de estresse térmico extremo muito mais frequentemente do que no passado recente (IPCC AR6 WGI FR – Página 1454). Análise do Climômetro

Analisamos aqui (consulte a Metodologia para mais detalhes) como eventos semelhantes à alta temperatura na onda de calor de março no Brasil mudaram no presente (2001–2023) em comparação com o que teriam parecido se tivessem ocorrido no passado (1979–2001) na região [50°W 40°W 20°S 27°S]. As Mudanças na Pressão de Superfície mostram que eventos semelhantes não exibem mudanças significativas no clima atual em comparação com o que teriam sido no passado. As Mudanças na Temperatura mostram que eventos semelhantes produzem temperaturas no clima atual que são até 1 °C mais quentes do que seriam no passado, em uma grande área da região analisada. As Mudanças na Precipitação não mostram variações significativas. As Mudanças na Velocidade do Vento indicam condições até 4 km/h mais ventosas sobre as regiões do sudoeste. Também observamos que Eventos Passados Semelhantes anteriormente ocorriam principalmente em novembro e dezembro, enquanto no clima atual eles estão ocorrendo principalmente em fevereiro e março. Mudanças nas Áreas Urbanas revelam que Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo estão até 1 °C mais quentes no presente em comparação com o passado. São Paulo também experimenta aumento da precipitação (até 1 mm/dia). Este aumento na precipitação, juntamente com as temperaturas mais altas, eleva o índice de calor. Por fim, descobrimos que fontes de variabilidade climática natural, especialmente a Oscilação Decadal do Pacífico e a Oscilação Multidecadal do Atlântico, podem ter influenciado o evento. Isso sugere que as mudanças que observamos no evento em comparação com o passado podem ser em parte devido à mudança climática impulsionada pelo homem, com uma contribuição da variabilidade natural.

Conclusão

Com base nas informações apresentadas, concluímos que as ondas de calor semelhantes à onda de calor de março no Brasil estão agora 1°C mais quentes do que as ondas de calor mais quentes anteriormente observadas no país, mesmo ocorrendo muito depois das estações de verão do hemisfério sul. Interpretamos a onda de calor de março no Brasil como um evento um tanto incomum, que agora ocorre com mais frequência em fevereiro/março em comparação ao passado, e que tanto a mudança climática impulsionada pelo homem quanto a variabilidade climática natural desempenharam um papel nesse aumento.

Fonte: https://www.climameter.org/20240315-18-brazil-heatwave